O jornal de hoje anuncia que ele foi capturado. Vivo ou morto? Não me importo, finalmente terei sossego.
- Puxa tá tão escuro, deve ser perto das duas horas… Ai, que vontade de ir…Será que ele anda por ai? Claro que sim.
Essa é a hora, a pior hora. Sempre sinto que ele está rondando. Acordo de madrugada e tenho essa impressão. Ele fica ali esperando eu sair. Não saio. Ele quer me pegar. Nem ouso me mexer. Faz muitos anos que é assim, noite após noite.
Me lembro da minha infância, e ele, meu terror noturno, me fazia molhar a cama, mas não levantava, nem para ir ao banheiro.
No sonhos, ele estava lá. Me impedia de colocar os pés pra fora da cama e avisava que na primeira oportunidade…
Algumas noites, me sentindo desesperada e em pânico, chamava meu pai. Ele desaparecia. Aliviada deduzia: é a mim que ele quer!
Nao sei o que pode fazer ele ficar lá noite após noite esperando essa tal oportunidade.
Crescemos juntos e quando fiz 15 anos, jurei: depois da festa, enfrentaria essa situacão. Afinal, 15 anos.
Não consegui. E novamente noite após noite dizia: É hoje!
Mas não era. Não consegui enfrentar o desconhecido da noite. Pensava em lhe pedir que me deixasse ir ao banheiro, mas ele certamente não responderia… Porquê? Isso vai além da conta.
Já deitada, com a luz apagada, nunca ousei imaginar a possibilidade de levantar.
Acordada na madrugada, me vejo cuidando dele. Seu silêncio sempre precede a possibilidade de um movimento e assim adormeço de novo.
Quem se mexe primeiro? Quem adormece primeiro? O que será que nos vincula todos estes anos?
Em meio a alegria de me ver livre do terror noturno, sinto o fracasso de não ter conseguido enfrentar esse companheiro de tantas noites mal dormidas.
Mas no fim das contas, o jornal anuncia: Jacaré é encontrado morto em frente a banco em MS.
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